26 Novembro, 2010

225 - PARALELOS ( en español )



( pintura de Alexandre Drummond, http://contra-forma-drummond.blogspot.com )



Se conocían de toda una vida.

El entrelazamiento de lo cotidiano había llevado a que se conocieran bien, una especie de destino que les mezclaba las vidas, haciéndolos trompicar uno en el otro con frecuencia, en los mismos eventos mundanos, en las idas al cine, en las playas, en los choques de opiniones.

Si tal proximidad accidental no existiera, probablemente se procurarían y envolverían en una amistad que, en términos prácticos, nada añadiría a sus vidas.

Ninguno de ellos temía exponerse delante el otro. Coexistían en su misterio, conociéndose mutuamente los pecados y las glorias, los triunfos y los desánimos. Y entre ellos, competían un poquito, de una forma que ambos consideraban saludable.

Habían tenido algunas enamoradas en común, no les importaba realmente quien primero las sedujera, o primero las perdiera. Su diálogo siempre era facilitado por un conocimiento común de aquello sobre lo que dialogaban. Y dialogar era algo que raramente les ocurría, algo que con facilidad dispensaban por innecesario.

Cada uno de ellos pensaba en el otro como siendo él el más fuerte, confiaba implícitamente en su protección y lo llamaba a la hora en que su ayuda se hacía necesaria. Y nunca ninguno de ellos faltó al otro, o lo dejó solo o desprotegido, a pesar que frecuentemente sentían el impacto de sus voluntades una contra la otra, demarcando una frontera esponjosa, elástica, una tierra de nadie donde se entendían en la oposición.

Siempre fueron tan próximos en la fuerza, tan iguales mas tan separados en sus capacidades, tan diversos en sus métodos y tendencias que, cuando la vida les exigió que sobrevivieran apartados, descubrieron con amargura, por primera vez, que uno de ellos tenia una nítida ventaja sobre el otro.

Era más apto, menos alcanzado por las aristas espinosas de la vida y por las imposiciones del mundo de los otros.Así, en vez de se apartarse, fue con la naturalidad de siempre que uno asumió una posición de predominancia, en un acuerdo confortable que les permitió seguir juntos, uno de ellos al timón de sus vidas, más apto en todos los aspectos prácticos de las cosas, y el otro menos visible, más protegido y más libre.

El tiempo pasó y ellos se mantuvieron juntos y apartados, como siempre.

Prevalece todavía el acuerdo tácito que hace con que, hasta hoy, el más lúcido de los dos siga timoneando sus vidas.

El otro ha muerto para el mundo, cubriéndose de anonimato hasta obtener la libertad de ser cualquiera, como todos los otros. Los que le llamaban poeta ya lo olvidaron hace mucho, perdidos en las incertidumbres de otras convicciones.

De los dos, sobreviví yo. Y una cierta ironía, visible por detrás de los ojos fatigados, a la que algunos llaman cinismo...


de la serie "enquadramentos")

01 Agosto, 2010

224 - NÃO SEI MAIS EM QUE LINGUA NÃO ME ENTENDEM

Quadro de Alexandre Drummond (contra-forma-drummond.blogspot.com )

Costumavam ser de surpresa, os olhares,
ao descobrirem-se assim, olhados.
Depois extinguia-se neles a candura,
num ápice em que brilhavam armaduras disfarçadas,
e o tempo parecia ficar suspenso, como se fosse esse o momento
de soarem os impactos das armas, como fauces bestiais.

Costumavam molhar-me os pés, os rios, numa carícia fluida
vinda de distâncias temerosas, aproximando-se lentamente
para que perdesse medos que nunca tive.
Traziam-me mensagens nos cantares rumorosos das fráguas,
coisas de um mesmo tempo num outro agora,
onde peixes curiosos se escondiam desnecessariamente
no sorrir das águas, de passos que eu jamais daria, a montante.

Costumava murmurar baixinho nos idiomas antigos
as palavras capazes de abrirem as planícies ás manhãs,
levadas pelas paisagens nos braços do vento.
Mas agora, á minha voz nem sequer os capinzais
se curvam em vénias, irregularmente,
como desalinhados cabelos verdes do mundo,
subitamente ajeitados pelos dedos de um Deus invisível,
placidamente sorrindo em azul-céu.

Hoje cerco-me de silêncio grato para me escutar,
antes que me entendam.

Marcadores: ,

26 Julho, 2010

223 - RECEITA PURA

Tempero a minha tinta com pigmentos certos
em pequenas doses de que nunca me apercebi,
e são sempre os mesmos, os frascos que deixo abertos,
nessas prateleiras onde guardo de tudo o que colhi.

Não são bem memórias, nem chegam a ser recordações.
São mais esboços, algumas coisas apenas começadas,
às vezes apenas imagens, ou apenas vagas sensações.
Raramente convicções plenas, ou certezas já formadas.

São também fragmentos, pedaços de coisas, objetos costumeiros,
papéis onde lancei linhas como gritos de alma, interrompidos,
arquivos de pensamentos que se inexplicaram, perdidos,
num mar de acasos displicentes, travestidos de ordeiros.

A um pouco de tudo isso, misturo a vontade e a sede do momento.
faço a tinta com que me pinto, na tela do que vou podendo ser,
em traços fortes de emoção e uma ou outra lágrima de prazer,
até que de mim reste algo mais concreto do que apenas o sentimento.

É dessa forma, vendo paredes cobertas de tantos pedaços de mim,
que recolhi em tantos rumos inesperados por onde me espraiei,
vendo as marcas do uso dizerem-me quais foram os que mais usei,
que entendo melhor como, afinal, sou, e como me tornei assim.

E se, nesse processo de tornar-me em mim e dar-me forma,
me dei a tanto, e em tanta coisa leio o formato da minha mão,
que privilégio conhecer-me assim por dentro, saber-me razão,
e escolhas além dos acasos, e improvisos além da norma...

E quando ocasionalmente me esqueço do básico que aprendi,
e dou por mim assim cabisbaixo, e vejo o triste que eu estou,
olho os meus frascos abertos, pago o preço de ser quem sou,
e repinto-me com as cores que, aos poucos, para mim escolhi.

Depois encaro os dias, senão refeito, pelo menos renovado.
E se não encontro motivos para orgulho nessas cores que exibo
por certo também nelas não encontro razões para o ver ferido
e o meu caminho estende-se em passos de caminho caminhado....



Julho 2010

Marcadores: ,

222 - ACREDITANDO

Corri como se acreditasse que,
no fim do meu fôlego, encontraria tudo o que imaginara.
Como se não tivesse nunca antes visto dissolver-se
nos detalhes da proximidade, lentamente,
todo o fascínio da coisa imaginada á distância
- até sobrarem apenas as cruezas do insólito irreverente,
em que ninguém pensou.
Corri do jeito que sei correr, não apenas rumando a um ponto,
mas vagueando num improviso saboroso
que sempre foi, afinal, um caminho para lá.
E lá sempre foi o lugar de onde se avistava um outro mar,
ou uma outra montanha de um verde ainda mais noite,
por detrás da qual, afinal, um dourado ainda mais belo
falava de um por de sol ainda mais fantástico que esse,
e do que este, aqui pertinho de casa,
tão comum e tão sem graça, na sua magnificência,
tão insuficiente e banal na sua mesmice e constância,
que fez com que me lançasse um dia estrada afora,
procurando-lhe o seu expoente máximo
em algum outro lugar.
E as ondas, dos outros mares como as daqui,
perseguem-se umas ás outras, e todas rumo a mim,
como se também já soubessem, como hoje eu sei,
que só assim, vistas de longe,
aparentam aquela beleza nunca única,
capaz de desencadear os primeiros passos
de caminhos que também não são únicos,
mas apenas iguais a si mesmos...
Por isso corri assim.
E quando me olho e me vejo ainda correndo,
sinto que corro sem esforço, fácilmente,
e sei que sempre irei olhar detrás de cada nova montanha,
procurando sempre um novo e mais belo amanhecer.
E sei que nas ondas sempre irei procurar outras formas
de me dizer, em carícias que duram apenas um momento,
e em todas elas, serei eu.
E em todos os amanheceres, serei eu.
E em todos os passos procurando amanheceres, serei eu.
E em todos os caminhos por onde me espalhe em passos,
e em todos os horizontes por onde me espalhe em caminhos,
serei eu rumando a mim.
Correndo o meu tempo.
Acreditando que encontrarei tudo o que imagino.


Julho 2010

Marcadores:

221 - VIBRATO


É mais complicado que tudo isso...

Mais que apenas o olho, ser o vento,
o cisco, a lágrima,
o sal no trilho aberto em selvas de barba...

Mais que apenas as mãos em gestos,
pontuando formas e sentires de momentos
escritos em entardeceres boreais, perpetuando-se...

ser as carícias táteis, buscando ainda,
talvez para sempre, os cálidos vestígios da intimidade única,
do instante insubstituível da chegada.

Mais que toques transacionais, gentis, contando histórias
onde as palavras são apenas artifícios evocando brilhos escuros
nos olhares, doutra forma esquecidos de si.

Preciso ser mais. Sempre precisei ser mais.

Tenho de ser a sílaba,
que encontras e reconheces entre palavras tuas.

A pausa que antecipa o sorriso por acontecer,
quando me tornas teu.

O tom colorido, na frase monocórdica,
com que me retomas ao desinteresse
com que me perdi no teu olhar...

Preciso ser mais,
por isso nunca serei completamente teu,
nem meu...

Por isso nunca haverá nada
que eu possa ser completamente.
Nem sequer apenas um pedaço de mim.



Maio/2010

Marcadores: , ,

220 - ENTRE MUROS


Caminho entre muros há muito tempo, calado,
esperando um silêncio que não se faz presente.
Há palavras riscadas com pedra, nos rebocos.
Paixões violentas gritando mais alto
que os gritos dos musgos verdes rasgados,
expondo entranhas de pedra crua.
Há lixo neste chão de incongruência,
neste percurso lento, detalhado, por entre muros
demasiado longos para serem rua.
Mas são demasiado perfeitos , demasiado cuidados,
demasiado altos e sem uma paisagem circundante
para onde se abram em ânsias de espaço vital,
para serem estrada. Não são.
Por detrás adivinham-se casas, ruídos, cores,
que talvez os muros defendam desse lixo,
precisamente.
Ou talvez os muros sirvam apenas
para que a rua se saiba rua,
ou a estrada se saiba estrada,
e para que os passantes se saibam indo,
parte de um fluxo acontecendo,
não desse mistério preservado do lado de lá,
ao alcance de uma mirada indiscreta
que ninguém arrisca,
como se os muros marcassem limites
bem mais vincados que os de qualquer rua.


Março 2010

Marcadores: , ,

219 - HAMADRIADA


Ainda vejo ao longe aquela árvore solitária
que um dia viste através do meu olhar.

Deitada na erva, da sombra olhavas o horizonte luminoso
e aquela colina distante, de onde a árvore te observava
como se fosse um espelho de ti, altaneira,
e tinhas os pensamentos simples que uma árvore tem,
quando quer apenas ser, apenas estar.
Da tua pele erguiam-se com simplicidade,
num coro alucinante aos sentidos,
as vozes das tuas raízes profundas
-que nenhuma casca continha,
nem roupa poderia disfarçar.
Era a linguagem antiga da terra quente
sob a erva molhada, repetindo histórias de seivas
por entre sorrisos de lábios férteis.
E os teus gestos eram levezas de vento
em carícias de folhas, como dedos
roçando por um instante a minha face feliz.

Ainda vejo ao longe aquela árvore solitária.
Enquanto me olha, protege em segredos de sombras
o que um dia viste, através do meu olhar.

Marcadores: , ,

218 - MAIS ALMA


A vida não se mede em tempo, mas em momentos.
Surpresas que, saindo do nada, transformam
acontecidos em acontecendos,
e reescrevem em sabores e lentidões de minúcias
tantos daqueles passos julgados perdidos,
trazendo-lhes os detalhes para o presente,
emprestando-lhes mais calor e uma outra alma
capaz de exprimir-se em pequenos nadas.

( - uma em que a vontade molda os dias,
e os nossos gestos definem espaços de ser
onde podemos deixar acontecer a vida
numa suave cronologia de carinhos constantes,
sobrepondo-os a tudo, redefinindo-nos,
e escrevendo a nossa história
do jeito que escolhemos para nós...)



26 Dez 2009

Marcadores: ,

217 - FELIZ NATAL

Há-de haver um ponto, no nosso percurso,
em que as palavras significarão totalmente
o que tantas vezes já dissemos, dizendo menos.
Até lá, não compliquemos.
E que se leiam nos nossos gestos mais simples,
na singeleza das nossas mãos estendendo-se,
não as palavras de ajuda que tantos já disseram,
mas o silêncio firme do braço forte, partilhado.
E que a voz nos complete o voto,
e deseje a todos um muito Feliz Natal
.

Marcadores: ,

12 Dezembro, 2009

216 - TEMPO RASGADO




Pisei naquela linha distante.
Naquele limite onde o tempo se rasga
e a vida fica algo estranha,
e todos os valores cedem um pouco,
se acomodam e ajustam
com aquele som de pano puído
que finalmente se esgaça,
abdica da complexidade objetiva da trama
e se reduz a fios soltos.
Isolados, são fios também,
mas não são mais aquela rede colorida
onde sonhei adolescências
em tantas tardes de calor inquieto.
Isolados, não me darão nunca mais
aquele balanço ocasional,
sem ritmo nem persistência,
que um calcanhar esquecido no chão
imprimia ocasionalmente.
Isolados, são apenas fios
retomando a sua identidade própria,
mas meros detalhes, apenas, duma história
que só juntos poderiam contar:
a minha história, de mim.
Isolados, são como palavras desconexas,
que não formam frases.
Que, no máximo, soam à saudade
duma rede balançando em
tarde quente...

Marcadores: , , ,

06 Dezembro, 2009

215 - COMO NO ?





?Como no?
Claro que las escuchas
a esas voces que sonan memórias de montaña!
Que hablan de las causas más profundas de los relevos
al quebraren la indulgencia monocórdica de las mañanas,
tan derramadas por las planuras de los campos
en oro de pan y cielos de puro azur...

? Se no las escucharas, como podrias saber
que hay gritos de verde en las memorias de las piedras
en los suelos de nuestros camiños,
y que el tiempo es su aliado, cuando las acaricia y desgasta,
y las reduce al polvo donde, sin fecha marcada,
firmamos echos en pisadas y plantios?

( ?No es eso que es vivir ?
Decidir a toda hora
se los camiños se cumplen en pasos,
o se son los pasos que se cumplen en camiños? )

25 Setembro, 2009

210 - VERSOS NA PRIMEIRA PESSOA




Eu acredito que sempre soube que, comigo, seria assim.
Que iria virando esquinas, mas que jamais esqueceria as ruas,
e que os tons cinza, como mapas encardidos nas paredes nuas,
trariam consigo os risos ocultos das outras cores, por fim.

Com essas cores fui pintando a imagem da cidade conhecida,
decompondo-a nos detalhes de cada revelado recanto,
sentindo-lhe o pulsar subterrâneo e o vigoroso encanto
com que se desnudava e abria aos meus passos, oferecida...

Por isso foi andando que a penetrei, num lento progredir.
Conheci-lhe todos os meios, todas as horas, todos os cheiros,
quem a erguia e compunha, e os passantes apenas, romeiros
de um caminho já pronto para se percorrer, e se usufruir.

Caminhei a cidade até á exaustão, até a saturar dos meus passos.
Até reconhecer as caras daqueles que a amavam da mesma forma,
sem obediência a nenhuma regra, nem seguindo qualquer norma,
mas, como eu, apreciando-lhe as feições, decorando-lhe os traços.

E foi na cidade, e nos seus mistérios e tantos segredos,
que me soube maior do que sabia, ou apenas adivinhava
e percebi que haveria uma outra estrada, jamais sonhada,
por onde ainda me lançaria afoito, apesar dos medos...


Setembro de 2009

209 - AH, SE FOSSE ASSIM




Tento escutar, escuto como se fosse um grito,
esse sentimento represado no abandono
com que nos entregamos a cada dia que começa.

( quantos já matamos a tiros, à bruta, desnecessariamente,
desses fins de noite que são, afinal,
apenas promessas de novas manhãs...?)

Mas apenas os passos ficam mais audíveis,
nisso que podiam ser carícias, e são apenas solas
conformando-se à pedra áspera do momento.

Nelas houvesse o encanto, que deve compor as manhãs,
e não aquele esfarelar de tempo cru,
por entre dedos descuidados...

Nelas se dissesse baixinho, quase só com a mente,
uma prece agradecendo o cheiro do pão,
e os risos nos olhos, antes de rir.

Nelas as pedras não esquecessem,
afastadas do pó,
as memórias dos caminhos...


Agosto de 2009

208 - A VOZ DA RUA




Tinha nome de santa, aquela rua,
e desvendou-me os seus segredos, um por um.

A sua voz vinha do calor suave daqueles degraus de pedra
onde me sentei agradado pela sombra e pela paz.

Vinha no convite das arestas arredondadas por tantos passos,
desses degraus puídos por anos de vassouradas ferozes
em limpezas inegociáveis .

Vinha das janelas abertas, em todas as casas,
como se fossem olhos por sobre uma porta-nariz,
apreciando-me enquanto me olhavam benevolentemente.

Vinha até das cores, por todos os lados,
tão ricas e intensas que se misturavam numa única cor,
como se fosse uma voz, para os meu olhos reverentes
que a escutavam como a uma sublime oração
a um deus ainda mais sublime.
Ou como a um poema recitando-se a si mesmo,
em lentidões de prazer saboreado.

Vinha de todo o lado, e era a voz da rua...


Escutei-a enquanto me contava detalhes
com essa tranqüilidade emocionante, plena de dignidade,
feita de rugas de pedra que lhe compunham uma face serena,
de quem não tem mais nada a ganhar ou a perder,
e por isso apenas está e, por estar, apenas é...

Falou-me dos seus filhos queridos, brincando,
e das casinhas de bonecas, onde logo depois foram pais,
numa velocidade que nenhuma rua, assim pacata, compreende
ou é capaz de acompanhar.
( Talvez por isso, meu Deus, talvez por isso,
tantos passos se perderam, descendo rumo ao cais e ao mar,
onde o espaço gritava mais espaço
e as ondas não eram apenas ondas,
mas uma promessa imensa de liberdade maior,
em que o pão se sonhava, talvez, como num sonho mais farto,
sem sombras que impedissem os risos efervescentes
de salpicarem, como beijos alegres, a pureza solarenga das manhãs.

Era a voz da rua, contínua, fluente, que eu escutava...

Contou-me segredos de movimentos furtivos e de amores,
de corpos frementes procurando-se na escuridão da noite
tão sabiamente mal iluminada, tão cúmplice,
e explicou-me as canções tristes do vinho nas tabernas
onde tantos gastaram o tostão que não tinham,
correndo atrás do sonho impossível de serem o que não eram,
ou afogando mágoas onde não havia regresso, nem piedade.


Era a voz da rua, que eu escutava assim, embevecido,
como nunca escutara antes, de forma tão perfeita...

E quando ela me falou, naquela sua linguagem clara, de rua antiga,
de olhos úmidos chorando nefastos amores e perdidas esperanças,
ou então de morte, e de má sorte; de gente perdida em ponta de faca;
no jogo infeliz de algum carteado, em escondidos de porão;
ou num fado denso, com lágrimas de sofrimento e solidão...
Quando ela assim me falou, dizia, eu não suportei mais, e fugi.

Fugi covardemente, para não escutar mais nada,
para que não pudesse nunca ver desmentidas na minha memória,
por outras palavras dessa minha mesma rua,
a felicidade e a beleza dos momentos que eu já sabia.

Fugi para que ficassem fora de mim, sem os escutar,
os horrores e as histórias tristes que toda a rua também tem,
e prevalecessem as imagens dos beijos e dos gestos de carícias
escondidos pela sombra imprecisa das esquinas,
e os sons de violas e guitarras doces acompanhando vozes que,
em algum dia daquela rua,
se alçaram às estrelas e lhes acrescentaram brilhos,
enigmáticos como sorrisos,
e deixaram para todo o sempre, atrás de si,
apenas ecos e saudades,
que hoje eu canto...


Agosto de 2009

207 - TRI-PATETIX




Ás vezes:

-A distância é bem menor que a lonjura
-O horizonte nunca é só uma linha pura
-A ternura não perdura na rocha dura

-O fogo perde-se nos rumos da fumaça
-O espelho bafejado apenas embaça
-O passo só caminha mas não passa

-A carícia fica-se pela mão que a faz
-A prática nega o que a boca traz
-O prazer embriaga mas não satisfaz

-O silêncio soa para reformular o grito
-A estátua ondula em gestos de agito
-O jogo não termina ao som do apito

-Praga de amor é ruim de ser rogada
-Pular degrau acaba mesmo em topada
-Conto vira só uma história contada

-A voz imita o que o silêncio diz
-Perde-se o que tanto se quis
-O erro acerta por um triz.



Junho de 2009

206 - NORTES DE POETA



Não sei se acontece com toda a gente, mas, comigo, sempre acaba por chegar um momento em que as palavras ficam menores do que eu preciso, e tudo o que escrevo parece nunca chegar perto do que queria dizer realmente, ou a realmente fazer-lhe jus.

Com isso, por sorte, o mundo continua longe de ter descrições definitivas para a maior parte das coisas, o que, convenhamos, é um privilégio.

Por sorte maior ainda, e desejavelmente com mais sucesso que eu, os poetas podem continuar o seu trabalho fantástico de tornar visível a todos a beleza de coisas que, sem eles, tantas vezes não passariam de trivialidades e lugares-comuns.

Mas, no meu caso, da mesma forma que atravesso momentos em que as palavras parecem sempre ficar aquém do necessário, também atravesso outros em que sinto que elas tomam o freio nos dentes e, numa correria difícil de controlar, saem por aí em ganhos de eficiência. De tal forma que parecem aumentar tanto os seus significados possíveis, que novas portas, para novas idéias, se abrem como convites - a mais e mais palavras...

A coisa fica ainda pior quando se torna visível o silêncio dos outros, quando um sub-reptício bocejo acontece, ou quando uma mirada disfarçada ao relógio revela uma mal contida ansiedade por espaços mais abertos, capaz de, por si mesma, gerar desatenções e menores cuidados. Vale, então, pesar o que digo e o que me é dito, e avaliar reciprocidades.

Essa é a hora em que preciso parar, redefinir rumos, avaliar a isenção com que me avalio. Nasce assim o momento frágil, sensível ao beijo como ao látego, em que os caminhos tantas vezes percorridos, são postos em questão, e torna-se realmente necessário definir como seguir em frente, e de que maneira.

E se procuro me arrepender o menos possível do que digo ou faço, também não é menos verdade que necessito monitorar-me, aferir-me com freqüência, e creio até ser visível na minha escrita o cuidado com que guardo um pouco de tempo para mim mesmo, de vez em quando, e me reciclo, me recomponho, entro em faxina, ou, simplesmente, me encaro com alguns cuidados, por detrimento inevitável ao tempo e aos cuidados que, normalmente, dedico ao quotidiano e aos outros.

Frequentemente, nesta busca constante, descubro com agrado que já estava no meu rumo, fosse ele qual fosse, e que posso perseverar nele até que algo surja em contrário e mude o meu norte.

Outras vezes, descubro que não, e que existe um o necessário ajuste – festivo, algumas vezes, sofrido e desagradável outras tantas.

Em todas elas, óbviamente, tem de prevalecer o homem, primeiro. O possível poeta, depois. E algum vago afastamento de permeio aos dois.


Agosto 2009

205 - DE TODAS AS VEZES FOI ASSIM




Quando sinto frio, apenas mudo de direção e continuo nadando no rumo da praia. Chego e saio da água movendo-me com gestos meio trôpegos, num solo firme que me exige outro tipo de coordenação motora.

Depois, esta chega aos poucos, junto com a suave ardência do sol na pele e, como uma leve surpresa, com uma nova consciência do cheiro das coisas, lembrando-me tardiamente a falta que tudo isso me faz, sob as águas.

De todas as vezes é assim, e o meu pequeno espaço no mundo reorganiza-se lentamente, em função da nova realidade, numa rotina conhecida que sempre saboreio com prazer e sem pensar muito a respeito.

Ontem, curiosamente, este tipo de reorganização ocorreu bem longe dos mergulhos e da água, e deixou-me a pensar que a mesma coisa deve, provavelmente, ocorrer em muitas outras situações que nem chego a notar.

Quando me sentei frente ao computador, a tentativa vã de fazê-lo funcionar relembrou-me da falta de energia. Por isso, peguei um punhado de folhas em branco e a minha caneta-tinteiro favorita, e dispus-me a encarar a alvura incólume do papel com a simplicidade dos gestos de outros tempos, anteriores aos teclados e aos monitores.

Vi renovar-se a angústia daquele instante fantástico que ocorre quando já fizemos alguma coisa que queríamos, mas ainda não aconteceu nada em conseqüência. A vertigem do ato já iniciado, que ainda não produziu resultados.

Vi renovarem-se as carícias trocadas entre os dedos e o corpo esbelto da caneta, evidenciando a latência duma sensualidade antiga e cúmplice, que não se perdeu nem quando vi que a tinta tinha secado, e a caneta não escrevia.

Abri-la, enchê-la e repô-la em condições de uso, demorou um pouquinho, durante o qual pude sentir cada um dos gestos que fazia, e o seu valor simbólico agigantando-se através do tempo.

Todos eles foram gestos que me acompanham desde há muitos anos, e que se estendem sempre um pouco além da necessidade, num ritual particular que visa muito além da viabilização do simples ato da escrita.

Iniciei-os um pouco trôpego, como ao sair da água depois de nadar e mergulhar muito tempo, levemente descoordenado e deselegante, mas foi por um instante só. Logo depois já me derramava com a vontade de sempre em linhas sem rasuras, que, inchadas de emoção, reconstruíram tardiamente uma vaga consciência da falta que tudo isto me faz quando uso o teclado e, ingrato, nem sequer noto a ausência do crepitar da pena no papel, e desse cheiro tão especial que a escrita, afinal, tem...

204 - AOS AMIGOS





Aos amigos,
mais do que as palavras sabem dizer.
A evocação silenciosa, na mente,
dos momentos tão especiais, partilhados
como sangue em veias comuns.
A memória sutil de detalhes
adoçando-nos o olhar
que alguns acham ausente.
Os pequenos segredos
que, tantas vezes, nem são nossos,
mas que guardamos a sete chaves
nas profundidades da confiança.
O conforto de um espelho
onde os nossos sentimentos
tantas vezes se descobrem
acompanhados...

Aos amigos, mais que o mundo !

20JULHO2009

203 - SINO




O sino traduz a tarde em quartos de hora, maçante,
como se fosse necessário esse tipo de ajuste
ou a vida carecesse de um rigor tão óbvio.
Sobrepõe-se á linguagem das folhas,
e dos seus segredos de sombra e luz.
Distrai da mensagem de beleza fundamental,
que veste de ouro, coado como num véu,
os casarios antigos do largo silencioso.
Mas quebra a circunspeção do lugar
que, de outra forma, talvez fosse triste,
apenas ecoando rumores de um tempo
em que os relógios não cantavam
as tardes fragmentadas
em gritos de bronze.
Para além do biombo verde-folha,
algumas vozes piam vida
em descompassos de acaso.

E eu registro o silêncio que,
mesmo assim,
existe como um beijo suave
encantando o mundo...

202 - FOI POR ISSO




Foi por isso que fiquei.
Na outra margem continuariam por muito tempo
os meus passos revigorados
até que um outro rio os detivesse em algum momento
já quase perdendo-se em novas águas
e daí ponderassem uma outra margem distante
onde um outro coqueiro inclinado
daria inicio a mais mistérios verde-sombra
ciliares a mais praias de areias brancas
que acabaria reclamando para mim
apondo-lhes o meu nome em caracteres antigos
numa runa escrita com o calcanhar.

Foi por isso que fiquei.
Para que não me vissem do espaço
como um aleijão em todas as praias
os satélites.

( Marquei a paisagem com uma flâmula vermelha
num apelo ondulante aos deuses desse vento
que tão bem conhece o som da minha voz
e entoei baixinho um cântico de morte
cada vez mais fraco
até que o silêncio dissesse mais do que eu sabia... )

201 - MAIS LONGO




Talvez seja assim, mais longo, o meu Tempo...

Não essa coisa contada em dias e meses ou anos,
mas sim algo mais insubstancial e etéreo,
cadenciado por subtis mudanças de luz,
no brilho com que as coisas reclamam atenção
ao meu olhar de pássaro altaneiro.

Não essa coisa da harmonia prevalecente,
das cores em parcerias felizes aos olhos,
arrulhando juntas pela tela do dia afora,
á custa de golpes de espátula
num borrão de monotonias.

Muito menos essa coisa medindo
eternamente o curso dos imprevistos;
da vida consumindo-se em detalhes
que ninguém prevê ou espera,
e que, na maior parte das vezes,
ninguém ambiciona, ou quer, ou deseja...

( embora se tenham tornado tão raros
os instantes de surpresa genuína...)

Talvez o meu tempo seja apenas o que sobra !

200 - PRECISO PARAR POR AQUI





Preciso parar por aqui,
enquanto as pegadas que deixei na vastidão do tempo
coincidem com o rumo dos meus caminhos.

Senão caminharei por onde não vou
e o meu coração ficará para trás,
inútil até para chorar a minha ausência.

Senão perderei as minhas escolhas mais sãs,
e depois não encontrarei jamais as palavras
com que digo tudo o que as palavras dizem de mim.

Senão, não saberei mais escolher, entre todos os outros,
aqueles a quem reverencio humildemente
em protestos de carinhos e leal amizade.

Preciso parar por aqui,
antes que no deserto nasçam as flores desconhecidas
que possam desmentir-lhe a lógica dos silêncios férteis.

Antes que os ventos me roubem, por entre os dedos,
os grãos com que as areias escrevem o esquecimento,
dispersando-se pela paisagem.

Antes que os gestos, livres outrora, persigam formas,
e não se traduzam mais naquelas carícias amorosas das mãos
afagando as linhas que, em letras, vão esculpindo

Ou antes que se viciem os meus braços fortes
num nado travestido, sub-reptício sempre,
que me imita sutilmente, mas sem me ser.

Preciso parar por aqui,
antes que eu seja apenas eu, fazendo alguma coisa,
em vez de mim, não importando o que faça...

JULHO/2009

199 - CANTAR MOMENTOS





Ás vezes escrevo, outras escrevo-me.
Crio e descrevo, ou meramente me traduzo.

Mas sou sempre eu aqui, e elas lá, mais distantes.
E eu sempre eu, e elas, palavras, sempre elas,
como se não nos trocássemos, entre nós
- ou como se não combinássemos realmente,
e apenas nos usássemos como instrumentos de prazer.

Eu, para aplacar a mente eternamente deslumbrada com a vida,
querendo dizer já hoje aquilo que, amanhã,
alguma outra coisa terá escondido...

Elas, mais antigas e mais sábias, para me aplacarem a mim,
e a esta sede, inextinguível, de cantar momentos...


Julho/ 2009

198 - SEM ESTILO


Poderia haver um estilo, uma marca, um indicador,
algo de que gostasse mais, ou mais preferisse,
ou que me levasse um pouco mais além,
me revelasse mais, ou aproveitasse melhor...

( Mas não consigo encontrar-me nas preferências,
a não ser perdendo-me assim, todo,
de todo, em todas elas...

Como se numa prolongada pesquisa lenta,
de espaço e tempo e ritmo....

E exatamente por essa ordem, assim...

O que seria também
a mesma coisa que faria se dançasse,
e pintasse pelo salão, com pincéis amarrados aos pés,
a música do meu sentir, num ritmo fluido
que só eu saberia interpretar
- se o soubesse... )


Julho 2009

Marcadores: , , , , , ,

197 - CRIANÇA


Que saberás tu, criança,
do tempo que gasto nos caminhos
longos do que eu sou?
O que uns escrevem no papel,
tentando capturar a Vida,
o momento,
ou um qualquer ponto exato,
eu escrevo no Tempo,
num permanente lavrar de um chão
imenso e permanentemente fértil,
mas onde tudo o que medra
são apenas as nuances várias
de um mesmo gesto de plantar,
sempre sob a consciência atroz
da eternidade e da História do ser...
E no girar desse ponteiro louco,
em brilhos e flashes tão rápidos
que mal espelham a surpresa
com que me olho surpreso,
cruzo-me com os outros.
Com as expectativas dos outros,
sempre tão altas e crescentes,
buracos tão negros sugando-me,
e absorvendo-me a energia,
sem imaginarem como é pouco
esse pouco que mando em mim...
( È sempre tão pouco,
o que mandamos em nós,
o que determinamos em detalhes...
E não há muito, do muito que se faça,
que dependa apenas do que queremos,
mesmo porque nem todos os rumos são caminhos,
e nem sempre, em cânticos, se podem erguer
todas as vozes que dizem a nossa voz...)

Julho/ 2009

Marcadores: ,

196 - ÀS DEZ HORAS DA MANHÃ


Esta é a hora em que o sol escreve as sombras
que aumentam a nitidez das coisas,
acrescendo contrastes e suaves relevos
ás planuras insidiosas da manhã.
Com isso, as flores destacam-se,
e crescem para um primeiro plano
como se fossem os rostos dos jardins;
personalidades vincadas e exóticas
a desnudarem-se em verde-folha
nos deboches crus e exibicionistas
de um choque estético
inescapável.
É a hora dos grandes passeios lentos,
sem pressas, nem cuidados.
Dos passos erráticos sob a luz dourada
em divagações por praças e ruas,
e dos prazeres simples da memória
para quem se atreve a tê-la.
Nos prédios cheios de gravatas,
é a hora do banheiro redentor,
do cafezinho estratégico,
do cigarro saboreado com atenção,
da olhada sob disfarce ao tirano opressor,
enfeitado de ponteiros gordos e lentos.
No mundo, há um ligeiro gaguejar,
neste horário aparentemente tão comum,
um leve solavanco estremecido,
uma janela de oportunidades mágicas
para quem quer pintar o dia em outras cores.
Como se um leve compasso de espera
nos permitisse um telefonema para nós mesmos
para perguntar: “-ainda estás aí ? “,
mesmo sabendo que pode não haver resposta.
São dez horas da manhã.
E outra vez eu tentei, mas não pude,
ser poeta, ás dez horas da manhã.
Tentei, mas faltou-me ser possível escolher como destino,
tudo aquilo que apenas se cumpre pelo fado.
Faltou-me um confinamento que eu pudesse derrubar,
uma janela, por pequena que fosse, que pudesse abrir
com um gesto que ninguém soubesse que era segredo.
E um vento que viesse carregado de cheiros salgados,
e brilhos verdes que ondulassem prazeres ao meu olhar,
sempre tão carente de areias e grandes espaços.
Faltou um tempo, corrido entre quilômetros e cansaços,
que desse ao silêncio a oportunidade de ser voz.
Mesmo que baixinha, mesmo que fraquinha e nervosa,
mas que estivesse presente, que marcasse o dia,
que trouxesse, num contínuo sussurrar baixinho,
aquela pulsação primitiva, aos sentidos,
aquela energia vital e naïve com que a vida
escreve, em detalhes, tudo o que a vida é.

Mas ás dez horas da manhã,
todos os dias, nessa horário perfeito
das dez horas da manhã,
num momento especial em que tudo pára,
eu quero ser poeta.
E, por um momento apenas,
só porque eu quero,
crio esse hiato onde fico fora do mundo,
e é como se desse o tal telefonema
e o poeta se expusesse e vivesse,
e me tranqüilizasse por ainda estar ali
- e só depois novamente se recolhesse e adiasse,
e o momento passasse,
e os ponteiros reiniciassem os seus movimentos,
e as mãos retomassem os gestos dos seus segredos,
e tudo ficasse como sempre, em espera...

- Ás dez horas da manhã !


Junho, 2009

195 - CAMPO SANTO

Foi um momento único, esse. As últimas chamas nas ruínas iluminavam o momento, despertando brilhos ensangüentados nas armaduras.

Depois de um certo ponto tinham começado a rodear-se, sem se aproximarem mais. Os seus ataques eram como sombras brilhantes, leques metálicos acontecendo num borrão que parecia acompanhar o aço das espadas vertiginosas gritando perigos.

Nasciam num ápice, soavam maldade, e logo depois retrocediam, neutralizados pelas defesas igualmente eficientes de outros Mestres. Mas todos os ataques deixavam marcas, e os Mestres, aos poucos, tombavam e morriam.

De um ponto privilegiado, assisti quando os dois últimos se encararam de armas em riste. A batalha parecia empurrá-los um para o outro, depois de terem deixado para trás os corpos tombados daqueles com quem as suas espadas haviam trocado rápidos beijos de morte.

De olhos nos olhos, com visível prazer, ensaiaram ataques sutis numa velocidade que não admitia hesitações nem assincronias, durante os quais se apoiavam muito mais no instinto e no conhecimento prévio dos movimentos do adversário do que nos seus próprios sentidos.

E mil vezes o combate pendeu a favor de um deles, por contraste a outras tantas em que pendeu a favor do outro.

Foi então que se deu um momento sublime, quando um deles passou apenas a repelir os ataques que se sucediam, sem revidar, nem tentar atingir o seu adversário.

Olhei-o com toda a atenção, e creio que, por um átimo apenas, pude ver claramente o que lhe ia na alma, e entender o enorme dilema que o dividia.

Lutava, mas só por respeito a um adversário que admirava, e a quem não queria fazer mal. Por isso, apenas se defendia, e com isso acumulava pequenos ferimentos que, pelo seu lado, não infligia.

Em pouco tempo ficou sangrando bastante e com movimentos limitados, á mercê do adversário e totalmente incapaz de se defender da morte que este lhe destinasse.

Houve um silêncio total no campo santo no momento em que o outro Mestre parou de atacar, e a espada ficou ao alto, num movimento de ataque interrompido.

Olhavam-se nos olhos, mutuamente, e em ambos eu podia ver a consciência que tinham desse momento, e de como ele os oprimia.

Fora a excelência que os colocara frente a frente, afastando sem dó todos os que não estavam á sua altura. E agora ambos tinham consciência desse destino que assim os opunha, em vez de aproximá-los.

O Mestre baixou a espada e cravou-a no solo. Segurou-a pelo punho e aplicou-lhe uma pancada lateralmente com o outro antebraço, logo abaixo do copo, quebrando-a.

Assim criava, também para si, a impossibilidade de lutar. Inclinou-se para a frente.

Ambos se abraçaram, esgotados, após as vênias rituais. Depois caminharam juntos, no evidente prazer de se apoiarem mutuamente.

A honra pesara mais que um pretenso destino.


( Junho/2009 - O mito das lâminas cruzadas - 1 )

194 - ALTER EGO

Sempre há um tempo
( um momento congelado entre tantos )
para se riscar na poeira acumulada dos silêncios
( como quem o traça em fluidos golpes de esgrima )
o caracter antigo e de simplicidade inexcedível
( de outra forma destoaria )
com que nos assinamos realmente.
( embora a areia mostre outros passos ensaiados ).

Sempre há um tempo
( o suspense dolorido entre duas batidas de coração )
em que a distância é como uma estrada ao longe
( onde nos vemos passar acenando gestos de adeus )
por onde desfilam os vultos de todos os outros
( demoramos a ver que não somos apenas nós )
olhando-nos num gesto de soslaio apressado
( repletos dessa mesma inveja que sentimos )
que só nos avalia a serenidade exterior
(ah ! como é doce a tranqüilidade dos outros )
enquanto rumam a lugares onde não queremos ir.
( embora assolados por vagas de desejos ).

Sempre há um tempo !
( embora ás vezes falte tanto...)

193 - O MEU SILÊNCIO 2

( REFEITO A PARTIR DO TEXTO IMEDIATAMENTE ANTERIOR:
"O MEU SILÊNCIO" )

Fui caindo no silêncio
como quem mergulha de noite
para uma piscina invisível, lá em baixo.
Foi como pular duma prancha, ás cegas,
para uma água escura onde não chegava.
Firmei o corpo, preparado,
para um impacto que não acontecia.
A elegância do movimento sumiu
quando os músculos gritaram dúvidas
á eternidade imensa, intranqüilos,
e da queda sobrou apenas a angústia.
A suprema angústia de cair sempre,
numa vertigem de saber-me despencando
sem saber até onde ou quando.
Sem pontos de referência
capazes de satisfazer a razão,
que pudessem dizer-me
se era para baixo, que caía.
Depois, os gestos tardios, instintivos,
dum arrependimento já sem lugar
perante o fato irreversível.
A queda sem preparo viável,
sem tempo para acabar,
com todas as memórias destruídas
menos as do salto ele mesmo.
Fui caindo, alheando-me de tudo,
desfocado de todos os sons em redor
e do burburinho dos passantes
até que, finalmente, o silêncio chegou
como uma cortina negra de desinteresse
cobrindo o mundo,
num estrondo líquido de carne castigada
e respingos de prata chovendo longe,
audíveis na falta de outros sons.
Um silêncio que não fez sentido,
assim instalado entre os sons quotidianos,
pesado e amorfo. Inútil.
Mas foi na quietude do não acontecer,
no tempo alterado da percepção falha
onde pensamentos surgiam como vagalumes impossíveis,
e nos velhos gestos renascidos das raízes mais profundas,
que as horas se uniram e cresceram contra mim
- e descobri que tinha de apressar o meu regresso
antes que o tempo me lambesse a alma
e curasse aquelas feridas que eu queria ter
doendo baixinho como um fado...
Voltei.

192 - O MEU SILÊNCIO

Fui caindo no silêncio
como quem mergulha de noite
para uma piscina invisível, lá em baixo.
Foi como pular duma prancha, ás cegas,
para uma água escura onde não chegava.
Firmei o corpo, preparado,
para um impacto que não acontecia.
A elegância do movimento sumiu
quando os músculos gritaram dúvidas
á eternidade imensa, intranqüilos,
e da queda sobrou apenas a angústia.
A suprema angústia de cair sempre,
numa vertigem de saber-me despencando
sem saber até onde ou quando.
Sem pontos de referência
capazes de satisfazer a razão.
Depois, os gestos instintivos,
dum arrependimento sem lugar
perante o irreversível.
E finalmente, o silêncio chegou
num estrondo de carne castigada
e respingos de prata.
E o silêncio não fez sentido.

191 - SOB O RIO

Há um outro rio,
Por baixo do silêncio.
Águas vivas, correndo rápidas,
tateando emoções em leque
como se fossem passos agitados,
rumando todos os nortes possíveis
- ou apenas palavras traindo-se,
entregando-se em sublime nudez,
tempo afora,
contando as histórias do silêncio...

190 - SATISFEITO

Leio-me, satisfeito.
Encontro-me nas palavras ditas.
Nas linhas traçadas sempre,
num eternamente renovado repetir.
Espectador dos meus dias,
assinei-me no tempo.
Coerentemente.
Sem escrever desesperos de solidão,
nem gritar cruezas de amor
em carências mascaradas,
ou travestidas de intelecto.
Sempre admirei as coisas simples,
os gestos máximos das carícias óbvias,
que não carecem de explicação
para serem o que são: apenas carícias.
Como palavras...



Dez 2008

189 - SÃOPARA TI

São para ti, os meus versos.
Para ti, cuja alma se alimenta da profundidade dos momentos.
E que extrais de cada um deles aquela partícula especial,
destilada da sua beleza e dos seus encantos,
da qual sobrevives enquanto registras na poeira, em passos,
os passos desse caminho que, caminhando, fazes teu.
Para ti, que sabiamente sacrificas no altar das Escolhas,
e nele vertes o teu sangue em permanentes oferendas,
buscando nessas trocas a segurança que precisas
para, mesmo que fortuitamente, seres quem és.
Para ti, que sabes que não pode ser de outra maneira,
e que regressas, em relutantes passos contrariados,
de horizontes mais belos onde ficarias, se pudesses,
vibrando em plenitudes indizíveis de poeta.
Que cruzas os teus passos errantes e anseios
com outros que também perseguem esse ideal maior.
e se destacam do conjunto, do rebanho dócil,
brilhando em luz própria enquanto cruzam os céus,
mesmo que rumando apenas sonhos.
São para ti, os meus versos, porque sabes mais.
Porque entendes que não há sonhos
que sejam, afinal, apenas sonhos.
Que todos eles são a mudança já começada,
um primeiro passo de uma outra escolha
que pode nem significar mudança.
Talvez apenas um ajuste, um retoque, um jeito,
algo por onde deixemos a vida entrar
e atingir-nos o cerne de uma outra forma,
acariciando-nos o peito com seus dedos de veludo,
agregando prazeres e sonhos sem destruir realidades.
São para ti, os meus versos, porque são teus.
Porque sempre nos encontraremos neste caminho,
mas talvez nem sempre saibamos reconhecer no outro
aquela parte de nós tão única, tão especial,
que existe através do tempo em eterna beleza
e faz com que derramemos em letras o nosso sal.
Serão sempre teus, os meus versos,
saibas-te poesia, ou não.

MARÇO 2009

187 - O VIANDANTE 3


Qualquer caminho é muito mais do que meramente um percurso, que se retoma após cada nova parada. Para ele, o caminho sempre tinha sido muito mais do que isso, e os seus passos tinham-no percorrido com uma satisfação renovada pela sucessão dos dias, sempre diferentes.

Os lugares revelavam-se únicos e vibrantes de detalhes, cada um deles um hino soando em louvor a um espaço e a um tempo que ali convergiam, perante os seus olhos, resultantes de uma infinidade de combinações possíveis.

Os outros caminhantes, quer partilhassem o seu rumo e permanecessem ao seu lado por algum tempo, quer cruzassem consigo rumando a outros destinos, continham em si mesmos o fascínio inapelável do futuro deslindando-se a cada passo. Por isso eram raros os conhecidos que encontrava. Quase todos caminhavam perseguindo objetivos e detalhes que variavam a todo o momento, o que tornava confusas e erráticas as suas rotas.

Habituara-se a vê-los ir e vir, os seus rostos mudando sempre. Eram cada vez menos os que pediam para partilhar a sua fogueira, nas longas noites frias. E era cada vez maior o numero de pontos luminosos espalhados pela noite, revelando outros pequenos acampamentos espalhados em todas as direções. Isolados.

Acabara perdendo a conta do tempo. Caminhara por muitos anos, sempre animado por esse amor ao caminho, apreciando-o em todos os detalhes. Enaltecera-lhe a beleza, ajudara os outros quando fora necessário, escutara-lhes as histórias, e tentara sempre guiar-lhes os passos quando os sentira perdidos. Tornara-se aos poucos numa presença habitual, passando sempre, caminhando sempre, carregando consigo consigo notícias de lugares distantes, e espalhando costumes e tradições.

Quando um dia sentiu vontade de parar, não imaginou que fosse cansaço. Apenas estranhou que os lugares, sempre tão especiais e únicos, começassem a parecer-se uns com os outros. Como se o mundo se estivesse copiando a si mesmo, e as flautas dos pastores tocassem, bucólicas, uma mesma melodia em todas as pastagens de todas as montanhas.

Quando realmente parou, construiu o seu abrigo e se rodeou dos seus pequenos confortos, descobriu que essa parada era apenas um outro passo no seu caminho. Uma etapa.
Rodeara-se de pequenos objetos. Coisas sem importância que trouxera de tantos lugares diferentes, e que evocavam momentos especiais, como sumários de emoções. E essas emoções despertavam saudades e novos anseios, entre eles o de partir novamente.

Foi então que percebeu que esse anseio da partida era também apenas um outro passo no seu caminho, tornado fácil por já ter um abrigo seu, para onde voltar. E assim partiu e voltou muitas vezes, escrevendo em passos a sua história.

Sabia como as marcas dos seus passos eram efêmeras, na poeira dos caminhos. Era apenas mais um passante deixando pegadas logo pisadas por outros, que lhes modificavam as formas. E o numero dos outros passantes não parava de aumentar, em idas e vindas por toda a parte, reduzindo tudo a traços amorfos, de leitura impossível.

Só nas pequenas cavernas, onde se refugiara das chuvas em vezes anteriores, de vez em quando encontrava vestígios da sua passagem. Pequenos benefícios que introduzira nesses lugares. Um chão que alisara, para melhor poder dormir. Uma rocha que escavara para acolher o fio de água que nascia da parede, transformando-o em fonte. Ou pedras, que empilhara na entrada para impedir o vento.

Eram coisas suas, nascidas do seu trabalho, das suas necessidades e do seu engenho, que muitos tinham aproveitado depois, usando-as e, muitas vezes, acrescentando-lhes alguma coisa, fosse boa ou não.

Mas sempre havia algo que fora acrescentado, e muitas vezes percebia que o lugar fora arrumado e limpo antes de ser abandonado por quem o usara, deixando-o pronto para acolher a quem o encontrasse. O seu exemplo frutificara. Ás vezes ainda encontrava a vassoura, improvisada duma galhada qualquer. Outras vezes, um pouco de lenha seca, empilhada num canto. Ou um pequeno fogão de barro amassado, onde se tornava fácil cozinhar algum alimento para recuperar as forças antes de prosseguir.

Atento, foi notando cada vez mais a existência deste tipo de detalhes, e percebeu que havia uma esperança. Que havia outros viandantes que não se limitavam a passar. Que escreviam as suas histórias em sutilezas que não poderiam ser apagadas pelos outros. E que muitos deles eram jovens, mas já empenhados na procura dos seus próprios caminhos, e firmes nos seus passos.

Essa convicção permeava a sua vida, e esteve presente de todas as vezes que decidiu partir. Sentava-se num pequeno banco, junto á porta já aberta, e calçava a suas sandálias de sola grossa, amarrando-as ás pernas com todo o cuidado enquanto olhava lá para fora, já sentindo o fascínio do caminho que se abria á sua frente.

Depois punha a capa pelos ombros, o alforge a tiracolo, o cantil do outro lado, e logo que pegava no seu cajado de viandante, os seus passos iniciavam-se com fluidez, como se a normalidade se reinstituísse, e retomava o caminho sem nunca olhar para trás, nem nunca fechar a porta.

Agora, enquanto olhava esses objetos que eram seus companheiros havia tantos anos, decidira que não partiria mais. E percebia que ficar era apenas mais um outro passo ainda, no seu caminho.

Ficou.

Março 2009

186 - O VIANDANTE 2


A mão reencontrou a forma que ela mesma impôs, muito tempo antes.

Com isso, houve uma espécie de estremecimento no mundo, ao redor.
Uma vibração de ajuste. Um regresso á normalidade.

A mão segurou o cabo do cajado com fluidez.

Percorreu-o em carícias de dedos até ao castão de prata, onde se abrigava o cristal puro.

E estes sentiram a textura, e tatearam os nós, tão conhecidos,
num gesto antigo, que sobrepunha doçura á experimentação.

Foi então que percebeu o corpo inclinando-se para a frente,
num discreto início de movimento, que logo reprimiu.

Os primeiros passos, se os desse, como os pararia ?

Olhou as sandálias de sola grossa, no chão.

Por um momento, pareceu-lhe que voltava a ouvir-lhes a voz
crepitada de quando caminhavam esmagando pequenas pedras
e torrões de terra pelos silêncios ermos dos caminhos, enquanto iam absorvendo as histórias espantosas de tantos lugares.

Mas as velhas sandálias apenas descansavam na sombra da capa de lã e do chapéu, ambos pendurados na parede, junto á grossa porta de madeira, ao lado do alforge de couro escuro, e do cantil.

Todos esses objetos familiares estavam há muito tempo na eminência daquele instante por chegar, cuja aproximação agora se dava num crescendo de tensão quase palpável.

E todos, pela primeira vez, pareciam perceber que isso era partir. Não mais como das outras vezes, quando apenas iam, sabendo que tinham ali o seu ponto de regresso.

Por isso, tudo ao seu redor foi ficando especial, quase mágico,
e uma luz, que parecia vinda do interior das coisas, brilhou suave,
e acrescentou solenidade e honra ao momento.

Por cima de todas as casas, uma leve fumaça ascendia, aromática,
enchendo o vale com sutis aromas de abastança.

Espalhou-a o vento, que não trouxe rumores de passos.

Permaneceram silenciosos os cães, sem ladrar limites.

O dia demorou a amanhecer, envergonhado.

Talvez de ser apenas outro dia.

Março 2009

185 - VIANDANTE 1

Caminho devagar, saboreando passos.

Sabendo que me levam na velocidade certa, dando-me tempo para pensar.

Caminho apesar de tudo, mesmo quando há na paisagem elementos conhecidos de há muito, ou perante o fatalismo do inevitável.

Caminho em desespero de causa, sem mapa, sem rumo. Deixando que o acaso escolha todos os que quiser, daqueles pensamentos desgarrados em que tropeço sem saber como integrá-los em frases.

Caminho como se estivesse absolutamente seguro da existência de um caminho. Um trilho oculto sob a lâmina de águas rasas, por debaixo das nuvens espelhadas, encastoadas em azul.

Caminho como se caminha, caminhando.

Apreciando os segredos do caminhar.

Caminho como se sempre valesse a pena.

Por isso o meu caminho é longo.

Por isso, o meu caminho se confunde com o meu destino.

Se assim não fosse, seria apenas mais um caminho.

Um outro fado qualquer.

Fev de 2009

184 - TRANSTORNO

Procurava algumas coisas, na pasta da confusão. Encontrei uma porção de textos deixados pelo meio. Pedaços de um lamento maior, eternamente inacabado, provocado pelo afastamento dolorido de alguém distante que está prisioneiro de si mesmo ( será que não estamos todos? ), vivendo a vida que tem de viver duma forma bipolar.
Ao que alguns chamariam transtorno, eu chamo saudade. Transcrevo o que juntei:

“ Sabe que escuto tua voz !
Não apenas aqueles gritos ocasionais,
do náufrago que consegue retesar o corpo
e, nas pontas dos pés, aflora a superfície,
numa ânsia vital por ar fresco.
Mas também aquela outra voz, em tons mais roucos,
vinda de tantas raízes grossas e antigas
que entrecruzamos nos segredos das profundidades.
Sinto o esforço que fazem para sugarem até á tona
aquela energia com que sempre perseguimos sonhos
e nos lançamos em aventuras maiores que o mundo,
em fulgurantes vôos de tapete mágico.
Leio como recados as mais comuns lembranças
deixadas nos pequenos nichos das memórias,
e com elas componho uma nova paisagem
por onde talvez possamos passear novamente,
tão livres de problemas e tão imortais
como os sonhos de uma criança feliz.
E até que alcancemos esses horizontes,
até que novos passeios aconteçam em novos passos,
esperarei nas memórias dessas noites antigas,
na meia luz desses bares por onde tanto andamos,
farejando detalhes em todos os recantos á nossa frente,
perdidos nas risadas inconseqüentes da amizade.
Esperarei até que encontres uma maneira
de contornar essas muralhas de silêncio algoz,
ou de romper o seu cerco de pedra alvar
e criar uma brecha por onde a vida te chegue,
e por onde te derrames e expandas imensamente,
por onde te reclames e assumas o tanto mais que és,
enquanto sorves da vida, em grandes haustos,
o fôlego para lançares ao mundo o teu canto.
Recupera-te e ajuda-me a reconstruir as pontes
derrubadas pelas tempestades inevitáveis,
para que recebas as minhas mensagens
e me digas que as lês e escutas bem alto.
Para que saiba que te atingem depressa,
sem as morosidades dos textos em papel,
nem extravios de correios ou enganos.
Para que, pelo menos, estejamos rápido
onde não podemos estar perto...”

( Para M, tão longe, com amizade e carinho.
Nunca se consegue dizer tudo mas, por vezes, fica-se demasiado longe disso...)

Fev 2009

183 - ESTAÇÃO


Fiquei na estação, vendo o trem passar. Nunca tinha feito isso. Adorei.
Repeti, extremamente atento, gostando de estar ali.
Dei-me esse tempo como um carinho merecido.
Acabei descobrindo a linguagem própria dos trens que passam.
É fluida. Uma melopéia de sons repetidos, quase cíclicos.
A intervalos, soam degraus ocasionais que não há nos trilhos.
Depois regressa a melopéia como pano de fundo.
O chão trepida, lembrando passos impacientes.
As carruagens passam arrastando um borrão de cores horizontais.
Do fundo delas surgem brilhos ao acaso, num alarde de instantes.
Janelas afastam-se levando consigo rostos fugazes
Como olhares de vidro contemplando-me em adeus.
Percebo-me refletido sem detalhes, imóvel e intermitente.
Sumo de todas as vezes, num repente.
Depois sobra um ponto vermelho, no alto.
Sorri-me um farol de cauda, que nunca vemos.
Espero ainda mais um trem. Outra vez observo.
Sorrio também, porque não?!
E daí, se chegar atrasado ?


Fev 2009

182 - OLHO-TE OS PASSOS

Olho-te os passos
Esse espalhafato de pernas e braços
Rumo a não sei bem qual direção
Como se lá houvesse uma singular razão
Que justificasse não apenas o agito
Mas também essa espécie de olhar aflito
Onde gritos de vida se escutam em brilhos
Ecoam histórias de passos em outros trilhos,
E houvesse um crônico adiar sempre latente
Nesse relógio de atraso permanente
Onde apenas os movimentos costumeiros
Dão significado aos gestos dos ponteiros
E tudo o mais se mistura e emenda...
Sem que nada mais se entenda ?
Ah, vida...ah vida...

181 - des-ACORDO

Todos os anos é a mesma coisa. Um ano que acaba, outro que começa, e eu no meio - sonhando com uma porta que possa separá-los definitivamente.

Uma porta que deixe bem clara a fronteira entre passado e presente, e atrás da qual me possa esconder da perseguição das coisas que não me agradaram, mas que teimam em acompanhar-me.

Uma porta suficientemente forte para conter do outro lado tudo o que lá deixei, e ainda tudo o mais que eu para lá mandar, principalmente se for empurrado com chutes na bunda.

Uma porta, enfim, que me dê tranqüilidade para pensar que posso começar do zero o novo ano, sem que este venha acompanhado das contaminações do passado recente.

Mas não adianta, e sempre acordo desse sonho vendo que não fui capaz de deixar para trás todos os horrores de que queria fugir, e que alguns ainda me acompanham e cercam sempre que paro para retemperar forças, entre combates.

Este ano são os tremas que me perseguem acintosamente. E esses safados dos hífen, acampados por entre moitas de exceções e inutilidades, armados com regras letais que fazem o meu computador sangrar, sublinhando a vermelho um monte das palavras que escrevo.

Isto para não falar do vovô, coitado, que graças a um tal de Acordo que dizem que houve por aí, passou de erudito a desinformado. Fechou a escolinha que tinha aberto nas traseiras lá de casa, e diz que não dá conta nem de escrever direito, quanto mais de ensinar os outros.

Com isso, o vovô agora quer é namorar e já anda dizendo que vai mesmo é dedicar-se a sacudir o esqueleto nos bailes funk com a galera, e não pára de me pedir que o apresente a umas moças que eram professoras na roça, e que agora vieram morar aqui pertinho.

Não sei se ele tem esperanças de que elas o ajudem com a nova ortografia, ou se quer apenas convidá-las para uns agitos noturnos da pesada. Mas avaliando por um bilhetinho que elas lhe enviaram, haja Acordo para justificar tanta exceção.

No que me diz respeito, procuro apenas o sossego. Um cantinho onde as regras não sejam mudadas á toa, só porque alguém se lembrou, para que eu possa chegar a escrever corretamente, um dia. Pelo menos tão bem quanto o vovô, nos tempos da sua escolinha, onde conseguia o que a escola mais próxima não era capaz: - alfabetizar.

Assim sendo, já mandei uma circular a todos os meus amigos e contactos, pedindo-lhes o favor de não me enviarem mais resumos das novas regras, nem do tal Acordo.

Estou decidido a continuar escrevendo como sempre fiz e, se houver erros na minha ortografia, por favor não os considerem resultado da minha ignorância, mas do meu protesto. E estremeço só de pensar como vai ter gente protestando...

E continuarei protestando indefinidamente, mesmo sob a convicção de que será inútil. Pelo menos até me convencer que vale a pena gastar milhões para atualizar os processadores de texto dos computadores que usamos no dia a dia, em vez de gastá-los no combate ao analfabetismo.

Até lá, creio que vou acompanhar vovô aos bailes funk, onde estas esquisitices ortográficas não fazem o menor sentido, e onde impera a verdadeira língua-mãe, sem Acordos, nem tremas, nem hifens: - a errada! Protestando bem ruidosamente! Será que ninguém escuta?


Janeiro indignado, 2009

180 - É HOJE ! É HOJE !

Pioneiro como sempre, Portugal mandou-me os primeiros sinais.
Dos amigos de lá, comecei a receber mensagens agradecendo os parabéns e os votos de felicidades, mas corrigindo-me - apesar de gratos, claro...- a pontaria, e relembrando que a data dos seus aniversários não era exatamente aquela que eu escolhera para lhes mostrar como gosto deles e me preocupo com as suas particularidades.
Embaraçado, porque é gente de quem gosto muito, lá me desculpei como pude, e lá fui anotando as novas datas naqueles papeizinhos que invariavelmente perco antes de transcrevê-los para a agenda.
Logo depois, os mais íntimos também deram sinal e foram aparecendo várias perguntas no estilo “ - Outra vez?!!! Você já me deu os parabéns em Maio e em Setembro... Tá querendo que eu fique velho?!!!”.
A coisa agravava-se nitidamente. Foi então que apareceram uns negócios de ultimíssima geração, todos na linha do Orkut, todos repletos de vantagens, novidades e valores agregados, que, entre outras coisas, prometiam funcionar como despertadores nas datas importantes do meu círculo de amizades, a que chamavam rede de amigos. E ainda apresentavam, todos eles, uma vantagem adicional: os meus amigos passavam a conhecer-se uns aos outros também, e de graça.
Ah, gente... estava mesmo de bom tamanho para um caso agudo de desorganização intrínseca, como o meu. Ainda mais sendo grátis... Subscrevi uma porção deles, é claro ! E com isso esparramei um monte de convites por toda a minha lista de endereços, sem me aperceber que o estava fazendo.
Quando descobri, achei até bom, porque logo comecei a receber avisos de datas de aniversário, mandei ( a medo, confesso...) os parabéns, e pasmem : acertei nas datas. Fiquei até emocionado, sabem ? Vocês podem achar que eu estou brincando, mas não estou não! Eu melo facilmente, com estas pequenas coisas!
Entretanto, muitos daqueles amigos que convidei meio sem saber, subscreveram também. E como são meio exagerados ( tal como eu ) subscreveram ( tal como eu ) uma meia dúzia desses serviços de rede de amigos. E ( tal como eu ) escreveram o seu nome de várias maneiras, em algumas delas usando iniciais, e noutras escrevendo o nome completo. E ninguém sabia que conspirava contra a minha recém-atingida tranqüilidade ( este troço leva trema? Hummm...será? )
Bom, a verdade é que o tempo passou, desde então, e voltaram as mensagens e os protestos dos amigos, e com eles os meus medos antigos de dar umas mancadas.
Começaram também a chegar umas mensagens de outros amigos que não conheço, informando-me que agora já posso comprar Viagra, online e baratíssimo, no maior segredo... E, já que falamos de segredo, aconselham-me também um extensor peniano que eu tenho até medo de saber o que é, mas que, decididamente, não usarei nunca...
Pior ainda: agora recebo várias mensagens ao mesmo tempo, de diferentes origens, de diferentes redes de amigos, avisando-me que se aproxima uma mesma data.
Ontem, por exemplo, avisaram-me que o Antonio M’s faz aniversário hoje. Uma outra mensagem avisou-me que hoje se cumpria ( meio dramático, não é? “cumprir...” ) o aniversário de A. M. Santiago C., que pode ser qualquer um dos três que conheço em diferentes pontos do planeta...
Entretanto, nenhum destes avisos bate certo com as anotações ( esborratadas, por terem sido corrigidas várias vezes ) da minha velha agenda...
Assim sendo, eu pergunto: - que outra saída eu tinha, senão mandar parabéns aos quatro?!!!

P.S. – Antonio, meu querido amigo, se não for seu aniversário me perdoa. Mais uma vez...


Jan 2009

179 - CALENDAS


Quando não estou, que esteja faltando. Nunca em falta.
Que me saibam perdido numa qualquer selva de palavras,
perambulando absorto pelos seus labirintos,
e colhendo frutos mágicos aos sentidos.
Tão entregue ás suas carícias, tão embrenhado nelas,
que seja fácil adivinhar-me esquecido de mim,
assim, alheado dos caminhos de tudo o mais.
Ou então
que me imaginem em plena batalha, cansado,
teimando naqueles gestos e floreios
do espadachim que acredita na elegância do combate.
Procurando vitórias merecidas e sem culpas,
num acrescentar de cicatrizes e satisfações.
Podem até pensar-me farto, saturado dos detalhes dos dias
e das estratégias, em vertigens de momentos
e correrias de sangue grosso nas veias.
Só não me presumam alheio.
Só não pensem que não me importo,
e que olho o calendário com a indiferença fria
de quem não lhe deve obrigações.
Felicidades, eu desejo sempre.
E até ver chegado aquele momento sem volta,
onde o último segundo se curva no horizonte
e se perde num pretérito mais que perfeito,
eu mantenho de prontidão no peito um grito.
É de Feliz Natal para todos, sem exceção.


Dez 2008

178 - OU SILÊNCIOS

Queria que fossem as palavras, a fazê-lo.
Que falassem das emoções e dos anseios,
do tempo esculpido em horas de pedra.
Que trouxessem á memória e á claridade
as profundezas mais guardadas de todos os baús.
Que exorcizassem todos os mal entendidos,
e expurgassem o mundo de todas as dúvidas.
Que simplesmente tivessem o peso do que dizem
e se revelassem o produto de escolhas felizes.
Queria que fossem as palavras, a fazê-lo...
Mas não objeto a que sejam os silêncios.
Desde que, depois deles, haja histórias a partilhar,
na intimidade cúmplice de alguma fogueira.
Desde que mantenham as mesmas certezas
das palavras que algum motivo conseguiu impedir.
Desde que façam parte do hino
que á vida se canta o tempo todo...


Dez 2008

177 - CONTO DE NATAL 2008 ( Recanto )

Quando olho, aqui de casa, vejo de um lado a montanha coberta de mata densa, verde, subindo sempre. E do outro lado, contornando-a, a cidade estendida a meus pés, espalhando-se vale abaixo até sumir de vista por detrás de outra montanha verde escura.

E todos os anos, nesta época, a parte que sobrou da minha alma de criança estremece, cresce, e acabo assistindo com olhos maravilhados de menino aos preparativos para o Natal.

As luzes e os enfeites, assim vistos de longe, na praticidade da minha varanda, são tão bonitos, tão maravilhosos, que nunca senti verdadeiramente a necessidade de chegar mais perto.

Foi assim até um dia, em que o acaso me colocou no centro da cidade, sem carro e com tempo disponível. Nesse dia aproximei-me vagarosamente, apreciando o momento. Já estava erguida na praça, como todos os anos, uma grande árvore de Natal. Não enorme, que a cidade é pequenina, mas grande mesmo assim.

Os preparativos já iam avançados, já estava firme no seu tripé, e já havia, de um lado e de outro, sobre uns estrados forrados com pano, algumas caixas de madeira enormes, embrulhadas como presentes, num gigantesco apelo á tradição de oferecer e partilhar.

Outras caixas, menores mas muito grandes , de papelão, também estavam embrulhadas e amarradas com grandes laços de fitas coloridas, compondo o aspecto dessas pequenas montanhas de presentes, acrescentando vida e simbolismo á praça.

Eu olhava para a árvore quando me pareceu ver alguém movimentando-se fortuitamente, atrás dela. Prestei mais atenção, e vi que se tratava dum senhor já de idade, que se dirigiu a um dos estrados e lá colocou, no meio das gigantes, uma pequena caixa de presente com um grande laçarote de fita dourada.

Depois contornou o estrado e parou, quase se assustando e parecendo muito surpreendido ao ver-me a olhar para ele.
- Boa noite ! – cumprimentei
- Boa noite ! – respondeu - Ótima, na verdade ! Está tudo ficando muito bonito, não está?
- Está mesmo, realmente ! – concordei, olhando em redor, enquanto conversávamos um pouco.

Pouco depois despedimo-nos, e ele foi embora sempre exibindo um sorriso de puro contentamento. Estranhando que não houvesse mais ninguém, a não ser nós dois, acabei por ir embora também, contente por ter estado ali.

A imagem dele indo embora satisfeito, sorrindo feliz, acompanhou-me durante todo o dia seguinte, recorrentemente. De tal forma que voltei á noite na esperança de voltar a encontrá-lo, para podermos conversar mais um pouco, mas não consegui.

Os trabalhos na praça, entretanto, tinham avançado, desde a véspera, e já se notavam diferenças. A maior de todas não estava sequer na árvore, nem na sua iluminação, mas na quantidade de presentes a seu lado, embrulhados nas cores mais diversas e com laços de fita de todos os tamanhos e feitios. Eram muitos.

Lembrei-me do velho senhor colocando furtivamente, de noite, um pequeno presente junto dos enormes presentes falsos, apenas de enfeite, que ornavam a praça. Agora, esse pequeno presente, já era apenas um no meio de muitos, impossível de distinguir qual.

Voltei muitas vezes, nas noites seguintes, e o número de presentes não parou de aumentar. E todas as noites apareceu alguém que eu não conhecia, por ali pairando discretamente, parecendo apreciar os enfeites da árvore e da praça, com quem sempre acabei trocando algumas palavras, conversando um pouco.

Hoje, tal como faço todos os anos desde aquela primeira vez, vim até á praça. E mais uma vez encontrei velhos conhecidos, que cumprimentei alegremente.

Junto aos enormes presentes falsos montados em cima do estrado, junto á grande árvore de Natal, já havia outros presentes bem menores, quando cheguei. Não sei se algum deles é do velho senhor, que nunca mais tornei a encontrar.

Discretamente acrescentei o meu, e quase me assustei quando senti que uma outra pessoa me observava curiosamente. Mas era apenas mais alguém que viera ver os trabalhos da decoração de Natal.

Cumprimentei a pessoa, com intensa satisfação. Depois saí passeando pela praça, apreciando tudo.

Mais uns dias e ela estará enfeitada com todos aqueles brilhos e cores de que a meninada gosta, e já as luzes piscarão em ritmos aleatórios de alegria e paz, conferindo á velha praça aquele ar dourado e especial das épocas de festa.

Depois, alguns dias mais tarde, começarão a escutar-se baixinho, nos altifalantes da praça, as músicas típicas desta quadra. E haverá anjinhos adejando as asas brancas, no coreto, em leves movimentos mecânicos.

Sabiamente iluminados, vai parecer que flutuam no ar enquanto tocam as suas pequenas liras, e alguns mexerão até as cabecinhas, onde se distinguirão bocas abertas, cantando, embora todo o mundo saiba que são dos corais da cidade as vozes que se escutam.

Quando se passa junto das escolas de música, escutam-se já os ensaios das bandas, preparando-se para os desfiles próximos, também com temas da quadra.

Nas janelas dos bares, e nas vitrines das lojas ao redor da praça, abundarão enfeites luminosos e cordões peludos e brilhantes, de cores garridas, onde bolas espelhadas coloridas irão refletir luzinhas e velinhas de fingir.

Nos vidros, e um pouco por toda a parte, mesmo com neve de mentirinha ou com a mais prosaica das canetas, mais uma vez surgirá escrita uma expressão que não podemos deixar cair no esquecimento, por ser a mais perfeita tentativa da humanidade de criar um dia no ano – pelo menos um ! – em que as pessoas falem de beleza, de amor e de paz:

Feliz Natal !

Que seja um voto. É o que desejo com sinceridade, e também a todos os que me lerem.


Dezembro de 2008, quase Natal.

176 - ESCOLHAS


Não lembrava mais das palavras doces de antigamente.
De como eram simples, e tocantes na sua simplicidade.
De como acarinhavam, reconfortavam,
e preenchiam os vazios do quotidiano.
Depois nasceram rotinas e cobranças,
vieram as etiquetas, em bando, gosmentas.
Querendo colar-se na pele, classificativas e rotulantes,
desgastantes pelo repudio que exigiam.
Muitas se descolaram com o tempo,
afrouxadas com o suor dos meus combates.
Outras nem chegaram a colar-se.
Mas todas deixaram cansaços e cicatrizes,
e algumas tiveram de ser arrancadas com os dentes,
em doloridos combates desiguais,
onde se tornavam impossíveis outras armas.
Com isso as palavras mudaram, no seu teor,
e a cautela diluiu brilhos e cerceou improvisos.
Mas subsiste a sua origem fundamental,
a mina de emoções onde borbulham e nascem,
e não sei mais viver sem elas.
Prova-se firme a sua constância.
Mesmo quando o acaso diminui o caudal desse rio
com que inundam as planuras das horas longas...
Por isso as escolho como caminho,
e me aceito nelas como destino.
Então, que elas sejam mais sábias e refletidas,
mas ainda capazes de incendiar e erguer.
De se fazerem presentes quando pretendidas,
e de acompanharem em longos vôos
os destinos que lhes aprouver.
Que transportem consigo doçura e beleza,
e todas as vibrações fortes de que a vida se veste.
Que a descrevam em obviedades e segredos.
Que sempre escrevam o poeta que as escreve,
e que para sempre possam traduzir
a emoção que as escolhe...

.
28Nov2008

175 - NÃO SEI DOS OUTROS

Não sei dos outros, só de mim.

Sei onde as palavras nascem e se impõem á minha vontade, dum jeito todo delas, que quase sempre é maior que as minhas escolhas. Sei da surpresa que sobrevém, na leitura, ao ver o formato que as palavras tomaram para passar adiante as idéias que as fizeram nascer. É como ler outro autor desenvolvendo um tema que eu escolhi. O tema é-me familiar. A forma que o veicula, não.

Talvez isso ocorra porque as palavras são o sangue do momento, correndo espesso nas fúrias e aguado no sentimento. Exatas na concisão necessária, e difusas na abrangência preparatória a um determinado estado de espírito. Penhores, quando promessas, mas livres por nascimento. Tendenciosas ao persuadirem, e reveladoras quando confessam.

No que me diz respeito, até as ausências formam palavras. Cruas, quando apenas revelam faltas. Necessárias, quando abrem um espaço, e uma pausa para discussão. Fatais, quando inocentam mas não convencem. Cruéis, quando maiores que o necessário.

E há também as presenças, nas palavras. As vozes dos outros explicando tão bem o que quereríamos dizer com palavras nossas, que não adianta nem tentar encontrar formas melhores de fazê-lo e dizer isso mesmo.

Talvez seja aqui que acontece o poeta. Aquele que aparece com o enfoque sensível que queríamos que fosse nosso, e traduz em palavras maravilhosas as emoções que ainda só conseguimos expressar de formas mais rudes. Emoções que ainda verbalizamos mal, mas das quais conhecemos o potencial de beleza, apenas ainda inalcançado.

Nesse sentido, é um ladrão, o poeta. Porque pega o momento para si mesmo, extrai-lhe a beleza que lhe encontrou, e congela-a numa outra escala de tempo, onde ela para sempre existirá sob esse formato enaltecido que agora é dele, marcado com seu ferro pessoal, revelado aos outros, mas negando-lhes a autoria.

No entanto, a esse instante de beleza eternizada, repercutido em muitas sensibilidades, somam-se muitos outros instantes, nascidos de tantos outros poetas que congelaram uma miríade de momentos só seus. E, nesse sentido, o Poeta já é um multiplicador, dando aos outros uma base que eles tornarão sua, e que os estimulará para as suas próprias interpretações do belo.

Por isso a Poesia progride como uma onda de beleza inescapável, movimentando-se com inércia própria num percurso jamais repetível, que deveria direcionar-nos para uma pergunta de extrema humildade:
- é o poeta quem faz a poesia, ou será que apenas a persegue?

Eu não sei. Não tenho a respostas. Um dia copiei á mão um poema e guardei-o. Muito tempo depois mostrei essa cópia a quem o tinha escrito, para que soubesse como o havia tornado meu, e como fazia parte dos meus guardados favoritos, apesar de saber que não fora escrito em minha intenção.

Com isso prestei a minha homenagem ao momento tão lindamente imortalizado, mostrando como me tocara e como lhe dava continuidade.

Hoje, eu escrevo prosa. Amanhã, veremos.


Nov de 2008

174 - MEMORIAS DO ESPELHO


Do outro lado do meu espelho
há um outro eu exposto ao vidro.
Há os mesmos gritos
e as mesmas fomes, comportadas.
As mesmas faltas doendo sob controle,
num rígido gerenciamento,
colorindo memórias de instantes únicos.
Do outro lado do meu espelho
há gestos que a imagem não traz.
É preciso adivinhá-los acontecendo,
para que se transformem e ganhem corpo.
Há segredos revelados em segredo.
Dedos escrevendo carícias
no vidro aveludado pelo vapor,
deixando mensagens.
Olhos atentos apreciando os contornos
dum pescoço forte,
onde uma gilete esquia aventuras
em nevascas de sabão.
Do outro lado do meu espelho,
esperam-me todas as histórias
dos meus gestos por fazer.
E no meio, um vidro. Separando-me de mim.

Nov 2008

173 - DESENCONTROS

Costumava sentar-se em um pedregulho enorme, mais alto que o muro do jardim, e dali, solitáriamente, observar o final do dia, vendo o sol rodar por entre as árvores até sumir completamente, lá longe, por detrás do mar.

De lá, olhando para baixo, podia ver o velho jardim abandonado. Nesse dia, sentiu-o diferente.

Até o regato que o cruzava, já não era a mesma velha presença de sempre, triste e murmurante, lúgubre contador de velhas histórias, contadas e recontadas durante dias e noites sem fim.

Imediatamente notou a presença de uma mulher e, do lado de fora do muro, um homem. Não querendo ser visto, ficou muito quieto, condenando-se a presenciar algo a que não queria assistir, tornando-se um espectador involuntário de um quotidiano que não era o seu.

Aos poucos, a luz dourada do final da tarde e o insólito da situação criaram um momento especial, um momento mágico, que o levou a identificar-se com esses dois estranhos que observava.

Ela, extasiada, parecia sentir pela primeira vez a presença amiga do regato bordado a prata, e aqueles doces gritos de vida que eram as flores, a dádiva que o mundo do belo lhe oferecia em cada folha amarela e solta, rodopiando no ar até cair a seus pés.

E os sons, todo esse mundo inebriante dos sons, parecia apontar para coisas ignoradas, trazendo até ela cantigas de amigo no murmúrio das águas, carícias no suave hálito do vento.

Tudo, de uma forma absoluta e irredutível, parecia conduzi-la para dentro de si própria, para formas insuspeitadas de volúpia e ternura, para sensações e necessidades que não sabia entender.

Sentada junto à água espelhada, receando ter-se atrasado mas esperando, assistia fremente e angustiada à passagem do tempo, vendo as flores que o regato transportava de vez em quando, trazidas já do outro lado do muro ao fundo do jardim, sob o qual as águas pareciam nascer...

E do outro lado desse muro, o homem. Mago sem cartola nem diploma, em pé, absorto, segurando um cigarro apagado entre os dedos, olhava o relógio distraidamente, certo de ter chegado demasiado cedo.

Tenso, encostado a uma árvore tombada junto do regato, e como que marcando os minutos, lentamente estendia um braço para trás de si e, colhendo uma flor, atirava-a para a água e seguia-a com os olhos, observando o seu deslizar lento – demasiado lento – até ela desaparecer por baixo do muro que ele, pouco depois, cheio de incertezas, saltaria.

De ambos os lados do muro, a tarde conivente esvaía-se preguiçosa...


Portugal, Sto Amaro de Oeiras, 1987

172 - CRÔNICAS DE CHRONOS


Há muito tempo atrás, quis escrever crônicas. Não as conhecia por esse nome, e não as queria como todas as outras que eu achava que eram crônicas, mas sim diferentes.
Queria-as levemente ao lado do costumeiro, capturando momentos e contando, cada uma delas, histórias subliminares mais profundas, só visíveis sob a luz de uma maior atenção.
A um grupo delas, chamei-lhes “enquadramentos”, travesti-os de contos, e poucas coisas terei escrito que me tenham dado tanto prazer.
Um desses contos, em particular, chamado “Desencontros”, falava dum casal que combinara encontrar-se num jardim que lhes era comum. Tinham chegado nele ao mesmo tempo, e nele tinham coexistido embebidos da mesma paixão e das mesmas ânsias.
Mas tinham demorado a encontrar-se, e desperdiçado muito do seu tempo em comum, simplesmente porque achavam, sobre a mesma coisa, coisas diferentes. Ele cria ter chegado demasiado cedo, e ficou esperando o tempo passar. Ela imaginando-se atrasada, e ficando apenas para aproveitar a solidão e a beleza do jardim.
A linguagem que usei para o conto/crônica não é excessivamente codificada, nem difícil de deslindar, e, no entanto sempre existe nele, parece-me, o perigo de a mensagem parecer tão leve que passe despercebida, e se acabe perdendo. Talvez até pelos mesmos motivos que os dois personagens se desencontraram: - pela presunção do desencontro.
Nesse contexto, creio que, então como hoje, nunca é demasiado alertar para a celeridade do tempo passando, e para os cuidados excessivos com que tantas vezes nos rodeamos, e ás situações que nos circundam, e que acabam impedindo-nos de nos entendermos fácilmente.
E quem nunca presumiu impossibilidades ou culpas, excessivamente ? Quem nunca deixou a ansiedade tolher prazeres e realizações importantes, ou até mesmo fundamentais ?
Para quem aprecia: - Chronos raras vezes é complacente. O Tempo, a oportunidade, o momento sublimemente isolado do contexto opressor – somos nós quem faz !
Para todos: - tempus fugit. Apressemo-nos...!


Nov 2008

171 - EM QUADRAS, POIS ENTÃO



Talvez apenas as leias em surpresa,
a estas quadras assim insuspeitadas,
ou talvez as deixes sobre a mesa
para mais lhes dares umas olhadas

Do seu destino final eu não sei,
mas é-me muito agradável pensar
que talvez as possas saborear
com o carinho com que as ousei;

Por isso, que a teus olhos sejam belas !
Que, lendo-as, encontres a amizade
e aquele leve toque de saudade
que, em fado de português, pus nelas...

( saudade, tem-se até de quem não se conhece,
afinal, desde que á pessoa se queira bem ...
por isso não há como fugir, nem passar sem
este toque, quando a ocasião acontece... )

E agora, que já está bem patente,
que as quadras não são o meu forte
retorno a um caminho mais silente
enquanto persigo um outro norte...

( Parabéns, Kath, neste 14 de Nov de 2008...Achavas que eu não seria capaz ??? rsss...)

170 - NÃO FOSSE O POETA ALGO MAIS


Ah, fosse o poeta
feito apenas das palavras,
das frases que lhe emprestam o sentido
e lhe agregam substância...

Fosse o poeta apenas
um conjunto vago de sentimentos
a derramar-se lentamente pelo mundo,
qual neblina etérea escondendo-se
junto ao chão cinza das madrugadas...

Fosse ele apenas uma voz,
algo a que o sentir desse forma,
capaz de cantar o outro lado das coisas
e a beleza triste do lugar-comum,
e de fazer com que isso bastasse...

Ou apenas um silêncio súbito, na hora certa,
uma pausa estranha que deixasse aberto no ar
um fosso impossível, repleto de nada,
algo imprevisto mas vibrante de significados
- como um dedo apontado ao mundo,
acusando-o de incompleto e matricida...

Ah, não fosse o poeta uma escolha impossível,
o sentimento elegendo a pessoa,
o sabor escolhendo o tempero que o cria...

Nov/2008

169 - CUME

Há um ponto,
Uma mistura de lugar e de momento, coexistindo,
a partir do qual só se descem morros.
É um topo, uma cumeeira feita de expectativas ,
culminando esforços.
Um lugar ermo
onde se chega acumulando vitórias sobre medos,
ponderando detalhes e movimentos.
E onde o silêncio continua sendo mais aguçado
que a consciência do silêncio,
na quietude prateada das madrugadas.
É um ponto único,
de onde se vê longe, longe dos outros.
De onde se percebe com nitidez o recorte dos caminhos
rumando minúcias de escolhas e destinos.
De onde os olhos dissecam a vida á exaustão,
apenas levemente nublados pela esperança.
É um ponto estranho, mágico,
além do qual tudo o mais é medo,
além do qual tudo o mais são surpresas,
além do qual a vida acontece
e gritam as cores múltiplas dos imprevistos.
Além do qual o mundo se renova.
Insuspeitadamente.


Nov 2008

168 - MAR


Não sei mais se foi na água, ou em algum cais...
Se foi nesse encontro permanente de água e pedra,
onde argolões de ferro e grossas amarras de corda trançada
contam as histórias das fúrias das ondas...
Ou se foi num mero fim de tarde em luz dourada,
enquanto sentia nos pés molhados a pedra quente
recordando-me os rigores do dia...
Mas foi algo intangível que ocorreu dessa forma,
num qualquer momento comum,
num detalhe inimaginável qualquer
de que só eu sou a história.
Diluí-me no mar. Misturei-me com ele.
Depois disso, a nossa história é conjunta.
Contam-na vozes verde- garrafa,
sobre os fundos de areia junto aos paredões
erguidos por outros pés como os meus
- sempre ansiosos por mais um passo adentrando as águas...
Acrescentam-lhe mistérios e monstros
as vozes escuras das profundidades,
onde os sonhos se desenrolam
e de onde a luz não volta...
Muitas outras vozes falam de raivas e tempestades,
de nós conquistando de volta o que nos foi conquistado,
de vidas chegando ao fim em abismos profanos
e profundidades de mistérios liquefeitos,
como se neles não tivessem começado...
E poucas falam de amor e abastança,
de liberdade e das imensidões convidando a pensar,
do que se aprende, sabendo ouvir.
Mas é a nossa história, sempre, conjunta,
explicando-se e acontecendo nas mínimas coisas.
Nas carcomidas cicatrizes no ferro das âncoras,
como em passageiras esculturas de tempo.
Na espuma luminosa das ondas em movimento
denunciando-se nas noites escuras.
No crepitar chiado dos grãos de areia
quando a água se recolhe para logo regressar.
No sabor a sal da corda que alguém morde
quando faltam mãos...
È sempre a nossa história, sim.
Mesmo aqui em Minas, tão longe dele,
escuto o mar nos poços de silêncio nas madrugadas,
escuto-o na falta das vozes das ondas
ciciando o meu nome em todos os cais.
Será que o mar me escuta a mim ?

Nov 2008

167 - CÁPSULA



No silêncio que antecipa o dia
há sons que escolhemos não escutar.
Galos anacrônicos rasgam as entranhas da quietude.
Motores gemem montanhas difíceis.
Passantes fortuitos assobiam passos ermos.
Siriemas abusadas gritam ecos noutros morros.
Sapos acordam os brejos em círculos concêntricos.
E o dia vai surgindo, num rasgar de placenta.
Os sinos acordarão num ataque histérico e doloso.
Sumirá a fumaça sobre as padarias iluminadas.
E por cima de tudo, estrídulo,
faltará o ruído das minhas ondas no paredão...


Nov 2008

166 - NÃO FOSSE O POETA ALGO MAIS


Ah, fosse o poeta
feito apenas das palavras,
das frases que lhe emprestam o sentido
e lhe agregam substância...

Fosse o poeta apenas
um conjunto vago de sentimentos
a derramar-se lentamente pelo mundo,
qual neblina etérea escondendo-se
junto ao chão cinza das madrugadas...

Fosse ele apenas uma voz,
algo a que o sentir desse forma,
capaz de cantar o outro lado das coisas
e a beleza triste do lugar-comum,
e de fazer com que isso bastasse...

Ou apenas um silêncio súbito, na hora certa,
uma pausa estranha que deixasse aberto no ar
um fosso impossível, repleto de nada,
algo imprevisto mas vibrante de significados
- como um dedo apontado ao mundo,
acusando-o de incompleto e matricida...

Ah, não fosse o poeta uma escolha impossível,
o sentimento elegendo a pessoa,
o sabor escolhendo o tempero que o cria...

Nov/2008